23 de Janeiro de 2006
Exmo Senhor Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social
Senhor Presidente da Associação Nacional de Direito ao Crédito
Minhas Senhoras e meus Senhores
As minhas primeiras palavras são para felicitar os organizadores desta conferência sobre microcrédito.
Estou convicto que a troca de ideias que aqui surgirá irá contribuir para sensibilização dos
intervenientes, organizações não governamentais, instituições financeiras e o público em geral para a
importância do microcrédito e para as questões que suscita e contribuir, estou certo, para o
amadurecimento das soluções que se impõe encontrar em torno desta matéria.
As sociedades modernas apresentam duas grandes tendências que condicionam de forma incontornável
a realidade económico-social vindoura: a evolução demográfica e a globalização. A dinâmica dos
fenómenos demográficos, como bem sabem, vem conduzindo a um envelhecimento progressivo da
população e, pelo menos num horizonte próximo, sem perspectivas de reversibilidade.
Em paralelo, a globalização, ao questionar os alicerces do posicionamento das economias na cena
internacional, obriga a ajustamentos que trazem riscos acrescidos, em especial em países como Portugal
onde o perfil de competitividade assenta menos em sectores de tecnologia avançada, ou em países,
também como Portugal, com problemas de qualificação da sua mão-de-obra.
Ambas estas tendências e os ajustamentos a que obrigam têm aumentado de forma considerável o risco
de factores como a velhice, a doença e o desemprego excluírem cada vez mais pessoas dos benefícios
do progresso da ciência, da técnica e dos ganhos que a própria globalização pode acarretar. Este risco
acrescido exige um reforço dos mecanismos disponíveis de protecção social, onde o Estado não se
pode demitir de forma alguma das suas responsabilidades, e onde, convém lembrar, a sociedade civil
deve assumir as suas obrigações de forma responsável.
Sabemos que uma sociedade que aspire a ser desenvolvida só o será verdadeiramente se for uma
sociedade mais justa, mais socialmente coesa. No que ao Estado diz respeito, a justiça e a coesão social
passam essencialmente pela Segurança Social. E neste campo, é oportuno realçar as medidas que o
Governo está a tomar no sentido de reforçar os meios para a protecção social, quer no curto prazo
quer, sobretudo, a médio e longo prazo tendo em vista assegurar a sua manutenção e sustentabilidade e
evitar que se verifiquem os cenários mais pessimistas a que seríamos conduzidos se nada se fizesse.
Permitam-me que saliente, a título de exemplo, as medidas que já foram tomadas, no sentido da
aproximação da idade legal da reforma dos funcionários do Estado ao regime geral e as medidas
visando a eliminação ou uniformização de vários regimes especiais mais favoráveis de aposentação ou
de assistência na saúde. Para evidenciar o forte empenhamento do Governo em assegurar aos
portugueses a sustentabilidade do sistema de segurança social permitam-me, e permita-me também o
Sr. Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, que mencione e sublinhe a importância das medidas
já tomadas e a tomar por Vª Exª. Refiro-me às medidas de promoção do envelhecimento activo, à
aceleração da transição para a nova fórmula de cálculo das pensões e à definição de um limite superior
para as pensões. Relembro ainda a revisão das regras de protecção no desemprego, a racionalização da
base de incidência contributiva, o combate à fraude e evasão contributiva.
Medidas há muito identificadas como fulcrais mas que só agora este governo teve a coragem de
implementar.
A criação de um enquadramento estável para as finanças públicas a par do reforço das dotações
orçamentais para a área social, com a canalização para a Segurança Social e a para a Caixa Geral de
Aposentações do acréscimo de dois pontos percentuais do IVA, são também medidas de grande
importância para a sustentabilidade a médio e longo prazo do nosso sistema de segurança social.
No que respeita ao papel a desempenhar pela sociedade civil, é minha convicção que deve, cada vez
mais, assumir-se como parte da solução, para os problemas sociais que emergem nas sociedades
modernas. Neste contexto, o microcrédito é uma solução com muitos méritos já bem comprovados
noutros países.
Este tema tem efectivamente vindo a revestir uma importância crescente nos últimos anos, e em
particular após as Nações Unidas terem declarado 2005 como o “Ano Internacional do Microcrédito”.
Responsáveis da ONU consideram que o microcrédito é um mecanismo essencial para os Objectivos
de Desenvolvimento do Milénio definidos em 2000, nomeadamente a erradicação da pobreza.
O microcrédito apoia várias actividades económicas, como as actividades do sector primário, o
pequeno comércio ou o artesanato. Exemplos apontados pela ONU sugerem que o microcrédito
contribui para o aumento do rendimento, para a criação de emprego, e permite indirectamente às
famílias melhor educação e melhor saúde.
Embora o microcrédito seja mais visível nos países em vias de desenvolvimento, os fundamentos para a
sua aplicação são universais e aplicam-se igualmente a economias desenvolvidas. Na realidade, mesmo
nos países ricos do hemisfério Norte, é frequente existirem famílias de poucos rendimentos mas com
capacidade de trabalho e iniciativa, para as quais um simples apoio, por pequeno que seja, representa
um poderoso “efeito multiplicador” da sua produtividade e rendimentos, contribuindo para o aumento
do bem-estar social das famílias elevando-o para níveis acima do limiar de pobreza.
No nosso país, já se verificaram algumas iniciativas do sector empresarial privado na área do
microcrédito. São iniciativas que devemos louvar, iniciativas consistentes com as práticas de
“responsabilidade social das empresas”, ou seja, com a constatação de que as instituições são algo mais
do que simples geradoras de lucros e que os stakeholders não se limitam aos seus accionistas. No caso
do microcrédito, a existência de vários exemplos de sucesso reforça a noção de que é uma área onde,
para além de benéfica para a sociedade, pode também ser lucrativa para os financiadores.
O apoio concedido pelo microcrédito é reconhecido como um instrumento eficaz para a inserção social
dos indivíduos e das famílias, pelo que se enquadra na política que o Governo se propôs levar a cabo,
em especial no âmbito do reforço da economia social e no combate ao desemprego. O microcrédito
revela-se igualmente como um instrumento relevante no âmbito do Plano Tecnológico, pelo impulso
que confere à livre iniciativa e à inovação.
Um aspecto que importa salientar é a distinção, por vezes subtil, nem sempre percepcionada, entre a
ajuda pura e o microcrédito. A primeira é geralmente levada a cabo por organizações sem fins
lucrativos – nomeadamente ONG’s ou instituições de caridade – e procura melhorar os níveis de
desenvolvimento ou recuperar regiões afectadas por guerras ou catástrofes. A ajuda não espera
qualquer retorno directo.
Já o microcrédito baseia-se numa lógica de risco-retorno. Embora os objectivos finais sejam próximos
– apoio às camadas sociais e regiões desfavorecidas – este mecanismo é diferente da ajuda porque é
mais exigente no que se refere à avaliação do risco e à viabilidade das iniciativas financiadas.
Para concluir, gostaria de sublinhar que durante 2005 as operações no âmbito do microcrédito mais do
que duplicaram, o que evidencia a sua crescente importância em Portugal. Faço votos para que este
ímpeto não esmoreça e que o microcrédito se revele cada vez mais um meio decisivo ao serviço da
valorização pessoal e da inserção social de um número crescente de portuguesas e portugueses. O
microcrédito não é nem deve ser uma moda passageira. É uma actividade que pode e deve prosperar,
porque contribui para objectivos sociais relevantes – redução da pobreza, melhoria das condições de
vida, aumento da dignidade do indivíduo, redução da desigualdade – mas também para objectivos
económicos – aumento do emprego, aumento do rendimento disponível, melhores padrões de
consumo.
Quanto ao papel do Estado, o Programa do Governo refere que a renovação do tecido empresarial será
obra fundamentalmente da iniciativa privada e do mercado, cabendo ao Estado o papel de facilitador de
diversificação, reestruturação e dinamismo tecnológico. Nessa medida, certamente que o Governo
prestará todo o apoio técnico ao desenvolvimento do microcrédito, incluindo a criação de uma
envolvente legal favorável.
Muito obrigado pela vossa atenção.
Ministério das Finanças e da Administração Pública - avisos legais | ficha técnica
Informação disponível no sítio do Ministério das Finanças e da Administração Pública - www.min-financas.pt