Discursos do Ministro de Estado e das Finanças
Intervenção do Ministro de Estado e das Finanças
Fernando Teixeira dos Santos - Fórum de Administradores de Empresas
13 de Dezembro de 2005
Exmas senhoras e senhores
Quero em primeiro lugar agradecer o convite que me fizeram para estar presente neste
Fórum, dedicado ao Orçamento do Estado para o próximo ano.
Desde que iniciei as funções que agora desempenho, ainda não há cinco meses, que é
bem evidente para mim que uma consolidação orçamental credível e sustentável,
assente em reformas estruturais há muito identificadas, é uma condição necessária –
embora infelizmente não suficiente – para imprimir uma nova dinâmica de
crescimento sustentado para a economia portuguesa.
Condição necessária porque é minha convicção de que este é o melhor contributo que o
Estado pode dar para a dinamização do tecido económico e empresarial, na medida em
que um Estado mais magro e eficiente deixa de ser um bloqueio, para constituir um
efectivo factor de apoio ao crescimento.
Porém, condição não suficiente porque é essencial o papel da iniciativa dos agentes
económicos privados, assim como dos seus principais actores, entre eles os gestores de
empresas, aqui bem representados. O gestor, enquanto maestro dos factores de
produção, é porventura um elemento chave nesta mudança que urge fazer ao nível
empresarial.
De entre as reformas a efectuar, a alteração estrutural do modo de funcionamento e de
organização do Estado é uma base fulcral desse trabalho que precisamos e estamos
apostados em fazer. É este o princípio fundamental subjacente à elaboração do
Orçamento do Estado para 2006, que dá seguimento a políticas iniciadas poucas
semanas após a tomada de posse deste Governo e, sobretudo, fazem parte de uma
estratégia coerente de consolidação e de redução do peso do Estado da economia em
Portugal.
Ao gestor exige-se o arrojo, a iniciativa, a capacidade de identificar oportunidades e a
audácia de arriscar em novas ideias. Só com esses ingredientes é possível criar mais
emprego, mais riqueza, e garantir melhor qualidade de vida no futuro.
Creio que esta assembleia, constituída sobretudo por gestores, compreende o alcance
do desafio que tem pela frente, no sentido de dar um contributo que é essencial para o
crescimento e para o desenvolvimento do nosso País.
Pela minha parte, e pela parte do Governo, mantemos a mesma determinação desde o
início, no sentido de cumprir a parte que nos cabe: colocar o Estado mais ao serviço dos
cidadãos e das empresas, de uma forma mais económica e eficiente.
Para dar um exemplo ainda recente, na revisão do Programa de Estabilidade e
Crescimento, entregue no final da semana passada na Assembleia da República, o
nosso compromisso de redução da despesa pública é mais exigente do que aquele que
estava contemplado no Programa que tinha sido aprovado em Junho último.
Durante 2006, não tenho dúvidas, o grande desafio será o da implementação do
Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado. Com ele,
pretendemos renovar os serviços prestados pelo Estado, com o objectivo de reforçar a
consolidação orçamental e a maior eficiência dos serviços.
Este Programa visa concretizar formas de obter economias de gastos e ganhos de
eficiência pela simplificação, racionalização de estruturas e modernização da
Administração Pública, através da reavaliação organizacional dos vários Ministérios e
da análise das respectivas funções, orgânica, de dimensão, de recursos afectos e de
procedimentos.
O PRACE pretende contribuir para a resolução essencialmente de quatro ordens de
problemas com que a Administração Pública actualmente se debate: organização,
dimensão, gestão e funcionamento.
No que concerne à organização, o objectivo é a racionalização e simplificação de
estruturas. Ao nível central, nos Ministérios, são disso exemplo a partilha de serviços e
de funções comuns. Ao nível regional e local, vai privilegiar-se a desconcentração de
funções, de forma a aproximar a Administração Central dos cidadãos, empresas e
comunidades. É o caso da criação do Balcão Único, que permitirá combinar um
atendimento de proximidade com a racionalização de serviços públicos existentes a
esses níveis.
A questão da dimensão vai também ser central nesta reestruturação. A extinção de
serviços, ou a fusão de outros, são hipóteses em cima da mesa, que estão a ser
consideradas pelas equipas que estão a analisar a orgânica dos vários Ministérios, no
âmbito do PRACE. São aliás medidas cujas propostas concretas serão apresentadas até
Março.
Neste âmbito, pretende-se contribuir para o cumprimento do objectivo do Programa
do Governo de reduzir em 75 mil o número de efectivos da função pública durante a
legislatura. Nesse sentido, está a ser feita uma avaliação das actividades desenvolvidas
pela Administração Central, com vista à determinação das que devem manter-se,
extinguir-se ou ser transferidas para outras entidades públicas ou privadas.
No campo da gestão, é nossa determinação firme que a justificação para a existência de
cada serviço passe por uma criteriosa definição de objectivos, e que a sua regular
avaliação seja a determinante que justifica a sua dimensão.
Também ao nível do funcionamento, o Programa de Reestruturação da Administração
Central do Estado vai concretizar medidas no sentido da desburocratização e da
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simplificação. Há que eliminar exigências legais ou regulamentares desnecessárias ou
redundantes, as mais das vezes assentes numa desconfiança sistemática dos serviços
face aos utentes. Há que simplificar procedimentos e processos de decisão muitas vezes
injustificadamente morosos.
Em suma, há que confiar mais nos utentes dos serviços, responder mais depressa às
suas solicitações e, claro, fiscalizar a posteriori o cumprimento das regras a que estão
sujeitos e que declararam respeitar. São exemplos dessas medidas, já em fase de
concretização, a criação da empresa na hora, a dissolução da empresa também de
forma expedita, o cartão único do cidadão ou a simplificação fiscal, cujos primeiros
passos já foram dados este ano, mas que vai continuar no próximo ano.
Reestruturação na gestão dos recursos humanos
Não quero deixar de referir também aqui um factor da mudança que será essencial
para que possamos ter uma administração mais ágil e eficiente: os recursos humanos.
Já o disse por mais do que uma vez que a reforma do Estado não se faz nem contra
nem sem os funcionários. É que uma mudança só produzirá efeitos se os funcionários
se convencerem que esta é a melhor solução. E uma das formas de lhes mostrar que
assim é consiste justamente em premiar os que são mais eficientes e dedicados.
É nesta medida que foi congelado o sistema cego e injusto de promoções automáticas.
Paralelamente, promove-se uma revisão das carreiras e remunerações, que melhor
possam reflectir a avaliação de desempenho. Esta revisão está em curso e visa
discriminar positivamente os melhores funcionários.
O Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado, assim como as
profundas alterações ao nível da lógica de funcionamento da gestão dos recursos
humanos, inserem-se, como já referi, no objectivo mais amplo do Governo, que é o de
efectuar uma verdadeira consolidação orçamental. E, para prosseguir este objectivo –
que constitui uma firme determinação deste Governo, com vista a dar um contributo
inequívoco para a retoma da actividade económica – há cinco linhas de força. Uma
dessas linhas é a reforma da Administração Pública, da qual dei alguns apontamentos.
Mas a consolidação orçamental passa também por encontrar as condições de
sustentabilidade de médio e longo prazo da Segurança Social, por melhorar a
qualidade da despesa e do investimento públicos, pela já referida simplificação e
moralização do sistema fiscal e, igualmente, pela redução do peso do Estado na
economia, designadamente prosseguindo uma adequada política de privatizações, que
favoreça a utilização eficiente dos recursos e contribua para a sustentabilidade das
finanças públicas.
Pela primeira vez em vários anos, a política orçamental deste Governo coloca
claramente as suas prioridades no lado da efectiva redução da despesa. Não ignoro que
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é o nível da despesa que acaba por determinar o nível de fiscalidade. Por isso afirmo,
mais uma vez, que será insustentável e, portanto, enganador, prometer baixar os
impostos sem antes reduzir, de forma duradoura, o peso da despesa pública na
economia.
O OE para 2006 prevê que o peso da despesa no PIB desça 0,5 pontos percentuais. O
Estado central dá um bom exemplo, ao reduzir a sua despesa corrente primária, após a
transferência para a Segurança Social, em 360 milhões de euros, em termos nominais. O
Programa de Estabilidade e Crescimento, agora actualizado, prevê que aquele peso da
despesa no PIB desça 0,9 pp em 2007, que baixe mais um ponto percentual em 2008 e
que se reduza ainda em 1,2 pp em 2009. De acordo com este Programa, em resultado
das medidas já adoptadas e a adoptar, o saldo orçamental das Administrações Públicas
melhorará, em 2009, em mais de 7.400 milhões de euros.
Volto ao ponto onde comecei.
Ao definir este quadro de consolidação, de estabilidade financeira, o Estado está
empenhado em cumprir a sua parte neste esforço de retoma da actividade económica e
de dinamização do tecido empresarial e, também, de inversão de expectativas
pessimistas, pois robustece os “fundamentais” macroeconómicos. As políticas
estruturais em que assenta a sustentabilidade desta consolidação orçamental permitem
promover a Ciência, a Tecnologia e a Sociedade da Informação, melhorar a qualificação
das portuguesas e dos portugueses e, através de uma profunda reforma da
Administração Pública, reduzir a burocracia e simplificar o sistema fiscal.
Criam-se assim condições para um ambiente no qual a iniciativa privada, os cidadãos e
as empresas, se podem afirmar, cumprindo o seu papel primordial e incontornável no
relançamento da economia.
Cabe, pois, aos senhores empresários e gestores, agentes da iniciativa privada, cumprir
um papel muito importante neste desafio para Portugal. Empresários e gestores não
podem demitir-se da sua responsabilidade, que passa por identificar oportunidades de
negócio, assumir riscos, inovar e modernizar, investir, enfim, pôr em prática as vossas
ideias de negócio. Não há outra forma de criar riqueza, de gerar emprego, de
contribuir decisivamente para colocar Portugal de novo na rota do desenvolvimento
económico.
O Governo confia na capacidade da iniciativa privada, no empenhamento dos
empresários, dos trabalhadores e das suas associações para construir um Portugal mais
próspero e competitivo. Pela minha parte, asseguro-vos que podem contar com este
Governo para ajudar a criar as condições para a concretização destes desígnios.
Muito obrigado