25 de Março de 2003
Senhor Professor Eduardo Catroga,
Senhor Professor Vítor Gonçalves,
Senhores Professores,
Senhoras alunas e Senhores alunos,
Senhoras e Senhores,
Queria começar por agradecer ao ISEG este amável convite.
Foi com prazer que o aceitei, tanto mais quanto fui aluna desta Escola e guardo com saudade os tempos em que estive ligada à academia, ainda antes do meu ingresso na vida pública.
O tema que me proponho analisar é bastante lato – “A economia portuguesa: Realidades e desafios”.
Procurarei tratá-lo numa lógica enquadradora nesta minha introdução para poder dar lugar, durante o período das perguntas e respostas, ao tratamento das questões mais particulares – e, porventura, mais actuais e interessantes para as Senhoras e os Senhores.
A economia portuguesa encontra-se actualmente sob a influência de dois factores principais.
O primeiro factor é fruto da política orçamental desadequada dos últimos anos, tendo resultado na acumulação de desequilíbrios que têm de ser desfeitos e que estão actualmente a condicionar a recuperação.
O segundo, é que a economia portuguesa está a ser afectada pela desaceleração na actividade internacional, cujo início pode ser encontrado já em 2001, com as três principais economias mundiais (EUA, Japão e Alemanha) simultaneamente em dificuldade, o que é raro.
Quanto ao primeiro aspecto, convém fazer o diagnóstico dos desequilíbrios acumulados.
O excesso de procura associado à política orçamental entre 1996 e 2001 gerou directamente um défice externo e indirectamente agravou-o, através de pressões inflacionistas e salariais.
Em termos acumulados Portugal perdeu 15% de competitividade, com os salários a crescer muito acima da produtividade.
As empresas exportadoras, impedidas de repercutir nos preços o aumento de custos suportados, foram esmagadas com esta evolução salarial e perderam em termos acumulados 10% de quota de mercado no exterior. É claro que internamente também perderam quota.
Este desequilíbrio não se pode manter, apesar de alguns entenderem que o défice externo numa união monetária não é preocupante, porque resulta de decisões privadas de optimização.
Admito que assim seja num plano abstracto, mas, na prática, uma situação de défice externo implica que uma economia como a portuguesa enfrente sérios problemas.
A verdade é que muito do investimento realizado nos últimos anos em Portugal foi efectuado no sector imobiliário (só o crédito à habitação passou de 20% do PIB no final de 1995 para 51% do PIB no final de 2002), sector onde se registam fortes distorções.
Por isso, temos, no mínimo, de duvidar das decisões de investimento que, podendo ser perfeitamente racionais no plano individual, podem não o ser tão racionais do ponto de vista macroeconómico.
Mas há outros indicadores a adensar estas dúvidas: nos últimos anos Portugal apresentou a maior taxa de investimento da UE (quase 30% do PIB), mas com resultados decepcionantes no aumento da produtividade.
Como acreditar na eficácia do investimento, numa preparação para o futuro, quando os exportadores portugueses perderam quota de mercado e não há notícia de nenhum investimento directo estrangeiro de vulto nos últimos anos, a não ser no sector não transaccionável?
Sendo o défice externo um défice da poupança face ao investimento, se Portugal está a realizar um volume de investimento muito superior à poupança que consegue gerar, é natural que um défice neste domínio acabe por se traduzir em venda de activos ao exterior e perda de centros de decisão.
Ou seja, também por este motivo devemos preocuparmo-nos e combater o défice externo.
Que implicações tem este diagnóstico sobre o futuro? Todas as que implicam medidas no sentido de diminuir o défice externo, recuperar o sector transaccionável e recuperar competitividade.
Isto significa que não devemos estimular a procura interna, porque isso só iria agravar os desequilíbrios que temos.
Como não podemos estimular a procura externa, temos que esperar que ela recupere.
Em relação à recuperação do sector transaccionável e da competitividade é evidente que temos que ter moderação salarial.
Se nos últimos anos tivemos os salários a crescer claramente acima da produtividade, vamos ter que passar por um período em que se passe o inverso.
Isso não significa necessariamente que os salários tenham que cair, significa é que é urgente acelerar o crescimento da produtividade.
Para isso, a concentração no sector transaccionável é em si uma ajuda, já que é tipicamente neste sector que se encontram maiores ganhos de produtividade.
Apesar de tudo isto, tem-se sugerido que Portugal deveria deixar de respeitar o Pacto de Estabilidade e Crescimento e apostar no investimento público para relançar a economia.
Esta sugestão contém dois perigos. O primeiro é a visão de curto prazo de não respeitar o Pacto de Estabilidade e Crescimento. Mas Portugal deve defender o Pacto, por vários motivos.
Porque para um país pequeno membro de uma união monetária o cumprimento de um regra orçamental é o que melhor defende os seus interesses, protegendo-o de ser afectado por uma eventual indisciplina dos países grandes.
Porque interessa a todos os países a existência de uma restrição orçamental efectiva. Quantos défices passados e quanta dívida pública com que nos confrontamos hoje não foram o resultado da falta de uma restrição orçamental efectiva no passado? Quantos dos problemas que temos hoje não são assim fruto da inexistência de um Pacto no passado?
Porque com as alterações demográficas que estão em curso, as contas públicas vão estar sujeitas a fortes pressões do lado da despesa nas próximas décadas, nomeadamente na área das pensões, o que torna essencial o objectivo de médio prazo de alcançar contas públicas equilibradas ou mesmo superavitárias.
E finalmente porque o processo de globalização em curso está a gerar fenómenos de competição fiscal, que é ilusório encarar como temporários e que é mais uma pressão adicional sobre as contas públicas.
Além disso, o Pacto de Estabilidade e de Crescimento comporta suficiente flexibilidade para que as políticas orçamentais possam fazer face a situações cíclicas menos favoráveis.
Não só para fazer face às situações de abrandamento “normais”, em resultado da análise da consolidação orçamental se ter passado a fazer com base na evolução dos défices corrigidos dos ciclos económicos, como também da admissão de um amplo funcionamento dos estabilizadores automáticos, designadamente nos casos dos países que atingiram já uma situação de equilíbrio ou excedentária.
Assim, por essa via, tornou-se mais admissível a deterioração de um défice nominal que resulte na directa ligação de uma desaceleração da actividade económica, quer por via de um aumento das despesas, designadamente de natureza social, quer por via de uma diminuição das receitas, nomeadamente em resultado de uma menor arrecadação de impostos.
Mas essa flexibilidade existe também para fazer face a situações excepcionais e/ou temporárias.
Com efeito, o procedimento dos défices orçamentais excessivos prevê que a ocorrência dessas situações – devidamente tipificada – deva ser tomada em consideração pela Comissão Europeia na avaliação do cumprimento da disciplina orçamental.
Excepcional é entendido no caso de um défice excessivo ter resultado ou de um evento extraordinário, com um impacto importante e fora do controlo do Estado-membro em causa, ou de uma recessão grave, isto é, envolvendo uma quebra real do produto superior a 2%.
Poderá também ser considerado excepcional um excesso do défice resultante de uma queda do PIB entre 0,75% e 2% à luz de elementos adicionais, tal como o carácter abrupto da recessão ou o decréscimo acumulado de produção.
Temporário é entendido no caso de as previsões da Comissão Europeia indicarem que o défice se situaria abaixo dos 3% uma vez cessadas as circunstâncias excepcionais.
O segundo perigo é a sugestão de encetar a recuperação com investimento público. Como já vimos, Portugal acumulou um desequilíbrio tal que não deve estimular a procura interna.
Não foi por se ter, no passado, seguido um modelo de desenvolvimento económico apostado no incentivo ao consumo – público e privado – e no investimento público, que a economia cresceu muito ou convergiu com a média da União Europeia.
Antes pelo contrário.
Sabemos que, apesar do entusiasmo com que foi saudado o facto de a economia portuguesa ter nos últimos anos crescido por vezes não mais do algumas décimas do que a média da União Europeia, esse crescimento foi, regra geral, de fraca qualidade.
Assim é que, se tomarmos, o desempenho da economia portuguesa, corrigido pelas paridades de poder de compra, podemos constatar, de acordo com os dados oficiais publicados pelo Eurostat, que não se verifica convergência real da nossa economia com a média da União Europeia desde 1997.
Isso é tanto mais preocupante quanto o mesmo resultado se não verificou com as outras economias ditas da “coesão” – da Espanha, da Irlanda e da Grécia – que continuaram paulatinamente o curso da respectiva convergência real com a média da União Europeia.
Ou seja, constitui inequivocamente uma forma de relançarmos também o processo de convergência real em Portugal atalhar o problema do desequilíbrio externo, também por via da consolidação orçamental, naquilo que implica igualmente uma reorientação do modelo de desenvolvimento económico.
Poderá parecer absurdo proceder a todo este ajustamento de forma pró-cíclica, mas tal apenas assim seria se só olhássemos ao crescimento do PIB e esquecêssemos a necessidade de corrigir o excessivo diferencial de inflação e o desequilíbrio interno.
A alternativa seria prosseguir uma trajectória de perda de competitividade e acumulação de um forte desequilíbrio externo.
Seria, por conseguinte, um erro duplamente grave, na medida em que a própria conjuntura económica na União Europeia nos não permitiria sequer admitir a possibilidade de ensaiar uma tentativa de relançamento da economia portuguesa em contra-corrente.
Por outro lado, quanto à questão do investimento público, a cujo incremento alguns apelam, convém referir que não é pelo facto de ele ter sido particularmente elevado nos últimos anos, atingindo taxas de crescimento quase impensáveis no contexto da União Europeia, que se verificaram significativos ganhos em termos de produtividade.
Todos sabemos, aliás, que a coberto da classificação de “investimento público” se escondem muitas vezes não mais do que meras despesas correntes, sem qualquer carácter reprodutivo. E todas as derrapagens orçamentais nas grandes obras públicas se chamam investimento público… E todos os “elefantes brancos” se chamam investimento público…
Dito de outro modo, a solução não deverá – nem poderá – passar por mais investimento público, mas tão só por melhor investimento público.
E não duvido da existência e da suficiência de fontes de financiamento públicas e privadas para apoiar projectos de investimento realmente produtivos – assim eles apareçam.
As famílias e as empresas devem também ter consciência desta necessidade de expandir o sector transaccionável.
Minhas Senhoras
Meus Senhores
O outro factor que está a influenciar a economia portuguesa, como já dissemos, tem a ver com a envolvente internacional.
Na verdade, estando abrangida na desaceleração da actividade internacional, a economia Alemã que é a principal parceira de Portugal – e conhecido que é cada vez maior o grau de sincronização dos ciclos económicos português e europeu, não é de estranhar que uma parte importante da explicação para o presente abrandamento da economia portuguesa possa ser encontrada nessa vertente.
Não me vou alongar sobre as razões das dificuldades internacionais, salientando apenas que a guerra contra o Iraque está evidentemente a complicar a situação económica internacional, e já a estava a afectar vários meses antes de esta se ter iniciado.
Direi apenas que, dependendo da duração da guerra, as principais organizações internacionais continuam a perspectivar uma retoma do crescimento económico a partir do segundo semestre de 2003.
É, entretanto, obviamente difícil avaliar o impacto económico da guerra. É evidente para todos que o mesmo dependerá do facto de o conflito ficar ou não confinado ao Iraque, de a respectiva duração ser curta ou longa e mesmo da forma como for percepcionado pelos mercados.
Com base nas lições colhidas no passado a propósito de conflitos militares de natureza semelhante, a Comissão Europeia elaborou um conjunto de cenários.
No caso de se verificar um aumento apenas temporário dos preços do petróleo, mesmo que significativo, o impacto no produto e nos preços seria bastante limitado.
Assim, se o preço do barril de brent subisse de cerca de 50%, para uma média ligeiramente acima dos 40 dólares no segundo trimestre do ano, caindo depois disso, o impacto no produto seria de apenas -0,1 pontos percentuais de menor crescimento e resultaria num aumento da inflação entre 0,1 e 02 pontos percentuais em 2003.
Já no caso de uma subida de 100%, para um preço superior aos 50 dólares que perdurasse durante os segundo e terceiro trimestres, recuperando a normalidade após isso, o impacto no crescimento do produto situar-se-ia entre -0,3 e -0,4 pontos percentuais e nos preços seria da ordem de mais 0,5 pontos percentuais em 2003.
É claro que os impactos seriam bem mais significativos no caso de aumentos permanentes dos preços do petróleo, na medida em que teriam efeitos duradouros sobre a inflação, rendimento disponível das famílias e rentabilidade das empresas, deprimindo por conseguinte o consumo e o investimento e afectando a confiança dos agentes económicos.
Após uma análise enquadradora da situação da economia portuguesa, interessa ponderar como ultrapassar estas dificuldades.
Desde logo, vale a pena referir que os indicadores de confiança estão a cair em Portugal desde 1999, não podendo, com seriedade, atribuir-se a responsabilidade pela situação à tentativa de reorientar as políticas económica e orçamental.
É inegável que o estado em que se encontravam as coisas não inspirava confiança aos agentes económicos e que isso se vinha traduzindo nos indicadores.
Também é inquestionável que a tendência se não inverteu entretanto, mas extraordinário seria que tal tivesse sucedido quando os indicadores de confiança estão em queda em toda a União Europeia.
Vale, aliás, a pena efectuar uma análise comparada dos indicadores para constatar que a evolução que se verifica em Portugal, embora mais acentuada, segue uma tendência similar às que registam as evoluções dos outros Estados-membros.
Devemos baixar os braços e aguardar que a retoma económica se concretize, designadamente na União Europeia?
Claramente que não.
Gostaria, aliás, de partilhar convosco o sentimento que tenho vindo a colher no quadro do Conselho de Ministros da Economia e Finanças da União Europeia.
Isto que vou afirmar não entra naturalmente em linha de conta com o facto de, no caso de se verificar uma duração da guerra mais extensa do que a prevista, com impactos designadamente sobre a oferta mais significativos que aqueles que se antevêem, em particular por via de um aumento duradouro dos preços do petróleo, poder ter de ser necessário tomar medidas concertadas para fazer face à situação.
Um primeiro sentimento que gostaria de destacar é que, apesar de a situação económica se apresentar menos positiva, nomeadamente por via da concretização de alguns riscos de natureza mais desfavorável, designadamente ligados às incertezas político-estratégicas existentes, não foi nunca colocada em causa pelo Conselho a necessidade de se prosseguir uma política económica perspectivada pelo médio-prazo.
Face aos apelos daqueles que, numa lógica de curto-prazo, consideram que todas as dificuldades de natureza conjuntural se resolvem com mais despesa pública, nomeadamente para incentivar a procura interna por via orçamental, a resposta do Conselho tem sido inequívoca.
Para que a retoma económica seja uma realidade na União Europeia é necessário, enquanto não se desvanecem os motivos de incerteza actuais, que se continue a trabalhar no sentido de a tornar e aos seus Estados-membros mais atractivos para o investimento e o consumo privados, isto é, mais produtivos e mais competitivos.
Isso resume-se em duas orientações.
Por um lado, prosseguir e acelerar as reformas estruturais, nomeadamente no sentido de uma maior flexibilização dos mercados do trabalho e dos produtos e serviços, em conformidade com a chamada “Agenda de Lisboa”.
Por outro, prosseguir sem hesitação os esforços de consolidação orçamental, nomeadamente naqueles países que não apresentam ainda situações orçamentais equilibradas, de acordo com os objectivos do Pacto de Estabilidade e Crescimento.
As duas orientações atrás referidas são por maioria de razão válidas no caso de Portugal.
Em primeiro lugar, porque, como pequeno e extremamente integrado país que é, seria completamente ilusório pensar que políticas de relançamento da procura interna por via de estímulos orçamentais produziriam quaisquer efeitos sensíveis.
O resultado, conforme já referi, traduzir-se-ia apenas num agravamento do défice orçamental, não compatível com a situação actual das finanças públicas, e num aumento do desequilíbrio externo e dos níveis de endividamento, já de si excessivos.
Em segundo lugar, porque, depois de anos de políticas económicas desajustadas, que implicaram significativas perdas de competitividade da produção nacional quer nos mercados externos quer no próprio mercado interno, o caminho não pode ser outro que não o da recuperação da competitividade perdida
Isso passa por mais produtividade e por uma aceleração das reformas estruturais, designadamente aquelas que envolvem os mercados do trabalho e dos bens e serviços, assim como da administração pública.
Em terceiro lugar, porque a situação das finanças públicas portuguesas exige do país que prossiga de forma sustentada e vigorosa a consolidação orçamental.
Apenas com finanças públicas saudáveis poderá existir margem não só para fazer face a condições cíclicas menos favoráveis, deixando funcionar plenamente os chamados estabilizadores automáticos.
Apenas com finanças públicas saudáveis será possível encarar no futuro um acréscimo de despesas de que o país ainda carece no plano social e uma redução da carga fiscal excessiva que incide sobre as empresas e os particulares e é naturalmente inibidora do investimento e do consumo e, por conseguinte da criação de riqueza.
É isso que fizemos, que estamos a fazer e vamos continuar a fazer. Tenho usado a imagem que devemos aproveitar a situação para “arrumar a casa”, de molde a que, logo que as circunstâncias o permitam, possamos acompanhar a retoma económica europeia.
Arrumando a casa pondo ordem nas contas do Estado. Sem isso não há estabilidade, credibilidade e recuperação económica possível.
Arrumando a casa lançando reformas estruturais. Sem isso não há melhoria da produtividade nem ganhos de competitividade.
Muito obrigada pela vossa atenção. Fico à disposição para responder às vossas questões.
Ministério das Finanças e da Administração Pública - avisos legais | ficha técnica
Informação disponível no sítio do Ministério das Finanças e da Administração Pública - www.min-financas.pt